sábado, 19 de setembro de 2026 Automação industrial e tecnologia para a indústria
Diário da Automação Automação industrial · tecnologia para a indústria
Empresas & Indústria

Randon: como Caxias do Sul virou referência em implementos rodoviários

Por Redação ·

Randon: como Caxias do Sul virou referência em implementos rodoviários

Quase todo caminhão de carga que roda nas estradas brasileiras leva atrás de si um semirreboque, e boa parte deles sai de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha. A cidade se tornou o principal polo de implementos rodoviários do país, e a Randon está no centro dessa história. O que começou em 1949 como uma oficina mecânica dos irmãos Randon virou um grupo industrial com dezenas de fábricas, presença em vários países e um portfólio que vai de semirreboques a materiais de fricção, freios, eixos e peças fundidas. Este artigo conta como isso aconteceu.

A oficina de 1949

A Randon nasceu em 1949, quando Raul Anselmo Randon e seu irmão Hercílio abriram uma oficina mecânica em Caxias do Sul, dedicada a consertos e à fabricação de peças. A cidade, colonizada por imigrantes italianos no fim do século 19, já tinha uma tradição de pequenas metalúrgicas e de fabricantes de carroças e carrocerias, o que ajudou a formar mão de obra e fornecedores.

Nos primeiros anos a empresa fabricava freios a ar para caminhões e outros componentes. Na década de 1950, passou a produzir reboques e semirreboques, quando o país vivia a expansão da malha rodoviária e o transporte de carga migrava dos trilhos para as estradas. Foi nesse produto que a Randon encontrou seu caminho.

Raul Randon assumiu a condução do negócio e permaneceu à frente do grupo por décadas, até sua morte, em 2018. Ele é lembrado pela decisão de investir em tecnologia própria e pela criação do modelo de joint ventures que marcaria a expansão da companhia.

Expansão, crises e o grupo de empresas

Nas décadas de 1960 e 1970, a Randon cresceu com a economia brasileira e diversificou. Chegou a fabricar caminhões fora de estrada e veículos especiais, por meio da Randon Veículos, e abriu o capital na bolsa nos anos 1970. A recessão dos anos 1980 foi um período difícil, e a empresa passou por reestruturação antes de retomar o crescimento.

A partir dos anos 1980 e 1990, o grupo adotou uma estratégia que se tornaria sua marca: formar joint ventures com empresas estrangeiras detentoras de tecnologia, em Caxias do Sul, para produzir componentes que antes eram importados. Entre elas:

Em 1996, a Randon incorporou a Fras-le, fabricante de materiais de fricção (lonas e pastilhas de freio) fundada em 1954 em Caxias do Sul. A Fras-le se tornaria o principal braço de autopeças do grupo, com fábricas no Brasil e no exterior e uma série de aquisições nos anos seguintes, entre elas a Nakata, tradicional marca brasileira de componentes de suspensão e direção.

O que a Randon produz hoje

O grupo, hoje chamado Randoncorp, se organiza em algumas divisões principais:

A receita anual do grupo está na casa dos bilhões de reais, e a Randon Implementos é uma das maiores fabricantes de semirreboques do mundo em volume de produção.

Tecnologia, automação e o centro de testes

Semirreboque parece um produto simples, mas envolve estruturas soldadas de grande porte, chassis que precisam suportar dezenas de toneladas por milhões de quilômetros e uma variedade enorme de configurações. As fábricas da Randon em Caxias do Sul concentram células de solda robotizada, corte a laser, pintura automatizada e linhas de montagem organizadas para lidar com essa customização. É um exemplo claro de onde os robôs industriais de solda ganharam espaço na indústria de veículos pesados no Brasil.

O grupo também mantém o Centro Tecnológico Randon, em Farroupilha (RS), um campo de provas com pistas de teste, laboratórios de durabilidade e ensaios de freios e componentes, aberto também a montadoras e fornecedores. Poucos fabricantes de implementos no mundo dispõem de uma estrutura de testes desse porte.

Nos últimos anos, a Randon investiu em pesquisa aplicada e em iniciativas de inovação aberta, com foco em materiais mais leves, telemetria embarcada nos implementos, componentes para veículos elétricos e digitalização das fábricas. Programas de manutenção preditiva em prensas, robôs e linhas de pintura acompanham essa transição, num padrão semelhante ao de outras grandes indústrias da Serra Gaúcha.

Presença no mercado

A Randon lidera o mercado brasileiro de semirreboques e exporta para dezenas de países, com destaque para América do Sul, África e Oriente Médio. A Fras-le vende materiais de fricção para montadoras e para o mercado de reposição em mais de cem países, com fábricas no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, na China e na Europa. As ações da Randon e da Fras-le são negociadas na B3.

Em Caxias do Sul, a Randon compartilha a cidade com a Marcopolo, encarroçadora de ônibus, e com centenas de metalúrgicas e fornecedores. Esse aglomerado faz da Serra Gaúcha um dos principais polos de veículos comerciais e autopeças do país, tema que aparece com frequência nas discussões sobre os maiores polos industriais do Brasil.

Legado

O legado da Randon está no modelo: uma indústria do interior que cresceu produzindo o que o país importava, formou parcerias tecnológicas em vez de apenas comprar licenças e construiu uma cadeia inteira de fornecedores ao redor de si. Raul Randon também deixou o Instituto Elisabetha Randon, criado pela família para ações sociais e educacionais em Caxias do Sul. Para quem estuda automação e manufatura no Brasil, a Serra Gaúcha continua sendo um dos laboratórios mais interessantes do país, e a Randon é uma de suas principais referências.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Quando a Randon foi fundada e por quem?

A Randon começou em 1949, em Caxias do Sul (RS), como uma pequena oficina mecânica aberta pelos irmãos Raul Anselmo Randon e Hercílio Randon. Raul conduziu a empresa por décadas e a transformou num grupo industrial de capital aberto.

O que a Randon fabrica?

O grupo fabrica implementos rodoviários (semirreboques, reboques e carrocerias), autopeças como materiais de fricção, freios, suspensões, eixos e engates, além de peças fundidas. Também atua em serviços financeiros e tecnologia voltados ao transporte.

A Fras-le faz parte da Randon?

Sim. A Fras-le, fabricante de lonas e pastilhas de freio fundada em 1954 em Caxias do Sul, foi incorporada ao grupo Randon em 1996 e hoje é a principal empresa da divisão de autopeças, com fábricas e marcas no Brasil e no exterior.

Veja também