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Vale: de Itabira a uma das maiores mineradoras de minério de ferro do mundo

Por Redação ·

Vale: de Itabira a uma das maiores mineradoras de minério de ferro do mundo

A Vale nasceu de uma jazida. As reservas de minério de ferro de Itabira, no interior de Minas Gerais, eram conhecidas desde o início do século 20, mas só ganharam uma empresa à altura em 1942, quando o governo brasileiro criou a Companhia Vale do Rio Doce. Oito décadas depois, a companhia opera minas no Pará e em Minas, ferrovias, portos, uma frota de navios de grande porte e figura entre as maiores produtoras de minério de ferro e níquel do planeta. É também uma das empresas brasileiras que mais avançaram em automação de operações, com caminhões autônomos, minas sem caminhões e centros de controle remoto.

Itabira e os Acordos de Washington

A Companhia Vale do Rio Doce foi criada em 1º de junho de 1942 pelo governo de Getúlio Vargas, em plena Segunda Guerra Mundial. A origem está nos Acordos de Washington, firmados naquele ano entre Brasil, Estados Unidos e Reino Unido: os aliados precisavam de minério de ferro para a indústria bélica e financiaram a formação de uma empresa que integrasse as minas de Itabira, a Estrada de Ferro Vitória a Minas e o embarque pelo porto de Vitória, no Espírito Santo.

A companhia herdou ativos da antiga Itabira Iron Ore Company, de capital britânico, e passou os primeiros anos reformando a ferrovia e organizando a lavra. A mina do Cauê, em Itabira, tornou-se o símbolo dessa fase, e a cidade cresceu em torno da mina, numa relação que foi tema frequente do poeta Carlos Drummond de Andrade, nascido ali.

Tubarão, Carajás e a escala global

Nas décadas de 1950 e 1960, a Vale ampliou a produção e passou a exportar em grande volume para o Japão e a Europa. Em 1966 inaugurou o Porto de Tubarão, em Vitória, projetado para receber navios de grande porte e que se tornou um dos maiores terminais de minério do mundo. A integração mina-ferrovia-porto virou a marca da companhia.

O salto seguinte veio da Amazônia. Em 1967, geólogos identificaram na Serra dos Carajás, no sudeste do Pará, uma das maiores reservas de minério de ferro de alto teor conhecidas. O desenvolvimento foi lento, por causa da logística, e só em 1985 a mina começou a operar, junto com a Estrada de Ferro Carajás, de cerca de 900 quilômetros, e o Terminal de Ponta da Madeira, em São Luís (MA). O minério de Carajás, com teor de ferro superior a 60%, deu à Vale uma vantagem de qualidade que ela mantém até hoje.

Ao longo desse período a empresa também diversificou: entrou em manganês, bauxita e alumínio, ouro, celulose e, mais tarde, em cobre e níquel.

A privatização de 1997

Em maio de 1997, a Vale foi privatizada em leilão na Bolsa do Rio de Janeiro, dentro do Programa Nacional de Desestatização. O controle foi arrematado por um consórcio liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), com participação de fundos de pensão e bancos, que posteriormente se organizou na holding Valepar. Em 2017 a Valepar foi extinta e a Vale passou a ter capital pulverizado, sem controlador definido.

Após a privatização a companhia acelerou a expansão internacional. O marco foi a compra da canadense Inco, em 2006, uma das maiores produtoras de níquel do mundo, que deu à Vale operações no Canadá, na Indonésia e na Nova Caledônia. Em 2007, o nome Companhia Vale do Rio Doce foi encurtado para Vale.

O que a Vale produz hoje

O minério de ferro continua sendo o principal negócio, com produção anual na casa de 300 milhões de toneladas, embarcadas principalmente para a China, o Japão, a Europa e as siderúrgicas brasileiras. As operações se dividem em dois grandes sistemas:

Além do ferro, a Vale produz pelotas (aglomerados de minério usados em altos-fornos e em redução direta), níquel e cobre, e mantém participações em logística e energia. Para transportar o minério, a empresa fomentou a construção dos navios Valemax, com capacidade em torno de 400 mil toneladas, entre os maiores graneleiros já construídos.

Automação: caminhões autônomos e mina sem caminhões

A Vale é um dos casos mais citados de automação em mineração no Brasil. O projeto S11D, em Canaã dos Carajás (PA), inaugurado em 2016, foi concebido com o sistema truckless: escavadeiras alimentam britadores móveis diretamente na frente de lavra, e correias transportadoras de longa distância levam o minério até a usina, eliminando a frota de caminhões fora de estrada. A empresa relata redução relevante no consumo de diesel e nas emissões em relação a uma mina convencional.

Em outras operações, como Brucutu (MG) e Carajás, a companhia opera caminhões autônomos, sem motorista a bordo, monitorados de salas de controle. Perfuratrizes autônomas e locomotivas com condução remota completam o quadro. Boa parte das minas, ferrovias e portos é supervisionada a partir de centros de operações integrados, que reúnem dados de sensores, sistemas de controle e planejamento de produção, um modelo próximo do que se discute nos guias de Indústria 4.0 na prática.

Na área de segurança, os rompimentos das barragens de Fundão, em Mariana (2015, operada pela Samarco, joint venture com a BHP), e da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (2019), tiveram consequências graves e mudaram a forma como a empresa e o setor tratam o assunto. Desde então a Vale vem descaracterizando barragens a montante e ampliando o monitoramento com sensores, radares e centros de controle geotécnico dedicados.

Presença no mercado

A Vale figura entre as três maiores produtoras de minério de ferro do mundo, ao lado das australianas Rio Tinto e BHP, e é uma das maiores empresas do Brasil por valor de mercado e por exportações. Suas ações são negociadas na B3 e na Bolsa de Nova York. No país, é um dos principais clientes de fornecedores de equipamentos pesados, automação e engenharia, o que ajuda a explicar a força dos polos industriais ligados à mineração em Minas Gerais e no Pará.

Legado

Em pouco mais de 80 anos, a Vale passou de uma estatal criada para abastecer os aliados na guerra a uma multinacional de capital aberto. Seu legado mais duradouro é o modelo de integração entre mina, ferrovia e porto e a demonstração de que é possível operar minas de grande escala com alto grau de automação. A história das barragens mostra, ao mesmo tempo, o tamanho da responsabilidade que acompanha esse porte.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Quando a Vale foi fundada e com que nome?

A empresa foi criada em 1º de junho de 1942, pelo governo de Getúlio Vargas, com o nome de Companhia Vale do Rio Doce, para explorar as minas de ferro de Itabira (MG). O nome foi encurtado para Vale em 2007.

Quando a Vale foi privatizada?

A Vale foi privatizada em maio de 1997, em leilão realizado na Bolsa do Rio de Janeiro, dentro do Programa Nacional de Desestatização. O controle foi comprado por um consórcio liderado pela CSN, que depois se reorganizou na holding Valepar.

O que é o projeto S11D da Vale?

S11D é a maior mina de minério de ferro da Vale, em Canaã dos Carajás (PA), inaugurada em 2016. Ela opera com sistema de lavra sem caminhões (truckless), em que escavadeiras alimentam britadores móveis e correias transportadoras levam o minério até a usina.

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