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Embraer: como o Brasil virou potência em jatos regionais

Por Redação ·

Embraer: como o Brasil virou potência em jatos regionais

A Embraer é a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, atrás apenas de Boeing e Airbus. A empresa nasceu como estatal em 1969, quase quebrou no início dos anos 1990, foi privatizada em 1994 e, a partir daí, construiu uma posição dominante no mercado de jatos regionais, aqueles com capacidade entre 70 e 150 assentos. Sua história é também a de como um país sem tradição aeronáutica formou engenheiros, criou uma cadeia de fornecedores e passou a exportar produtos de altíssima complexidade.

A origem: uma estatal criada a partir de um instituto de pesquisa

A Embraer, sigla de Empresa Brasileira de Aeronáutica, foi criada em 19 de agosto de 1969 pelo governo federal, em São José dos Campos, no interior de São Paulo. A escolha da cidade não foi acidental: ali funcionavam desde a década de 1950 o Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que formavam engenheiros e desenvolviam projetos experimentais.

O principal articulador da empresa foi o engenheiro Ozires Silva, formado pelo ITA, que liderava no CTA o projeto de um bimotor turboélice para transporte regional. Esse projeto virou o EMB 110 Bandeirante, avião para até 19 passageiros que fez seu primeiro voo como protótipo em 1968 e se tornou o primeiro produto de série da nova empresa. O Bandeirante foi vendido para companhias regionais no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, e provou que era possível exportar aeronaves projetadas no país.

Nos anos 1970 e 1980, a Embraer ampliou o portfólio com produtos que continuam relevantes até hoje:

Crise, privatização e a virada com o ERJ 145

O fim dos anos 1980 e o começo dos 1990 foram difíceis. A recessão brasileira e a dependência de encomendas do governo levaram a empresa a acumular prejuízos e cortar milhares de empregos. Em 7 de dezembro de 1994, a Embraer foi privatizada, com investidores brasileiros assumindo o controle e o governo mantendo uma ação de classe especial, a chamada golden share, com poder de veto em decisões estratégicas.

A aposta que salvou a empresa foi o ERJ 145, um jato regional de 50 assentos que voou pela primeira vez em 1995 e entrou em operação comercial em 1996, no momento em que as companhias norte-americanas queriam substituir turboélices por jatos em suas malhas regionais. A família ERJ (versões 135, 140 e 145) vendeu mais de mil unidades e financiou o passo seguinte.

Os E-Jets e a consolidação como potência em jatos regionais

Em 1999, a Embraer anunciou uma nova família de jatos maiores, projetada do zero em vez de derivada de um modelo existente. Os E-Jets (E170, E175, E190 e E195) tinham fuselagem mais larga, sem o assento do meio, e capacidade de 70 a cerca de 120 passageiros. O primeiro voo ocorreu em 2002 e a entrada em serviço em 2004. A família se tornou o produto mais bem-sucedido da história da empresa, com mais de 1.700 unidades entregues a operadores nos cinco continentes.

A segunda geração, chamada E2, trouxe novos motores, asas redesenhadas e sistemas de comando eletrônico (fly-by-wire) de quarta geração. O E190-E2 entrou em serviço em 2018 e o E195-E2 em 2019, este último tendo a Azul como cliente de lançamento.

Em paralelo, a Embraer entrou na aviação executiva a partir de 2008 com os Phenom 100 e Phenom 300, seguidos pelos Legacy 450 e 500, hoje renomeados Praetor 500 e Praetor 600. O Phenom 300 se tornou, por mais de uma década, o jato executivo leve mais entregue do mundo.

Na defesa, o A-29 Super Tucano, evolução do Tucano original, foi vendido para dezenas de países. O KC-390 Millennium, cargueiro militar a jato que voou pela primeira vez em 2015, entrou em operação na Força Aérea Brasileira em 2019 e conquistou clientes na Europa e na Ásia, tornando-se o maior avião já projetado pela empresa.

Fabricação, automação e inovação

Montar aeronaves é um processo de baixa cadência e alta variabilidade, o que sempre dificultou a automação em comparação com a indústria automotiva. Ainda assim, a Embraer investiu de forma consistente em tecnologias de manufatura: furação e rebitagem automatizadas de fuselagens, deposição automatizada de fibra de carbono para peças em compósito e metrologia a laser para alinhamento de grandes conjuntos.

A empresa também é citada com frequência como exemplo de manufatura enxuta na indústria brasileira, com programas de melhoria contínua que reduziram o tempo de montagem e o estoque em processo. Quem busca uma referência sobre como conciliar as duas frentes pode ler nosso guia sobre lean e automação: como priorizar investimentos.

Do lado do produto, a Embraer criou a Embraer-X, unidade voltada a inovação disruptiva. Dela saiu a Eve, empresa de aeronaves elétricas de decolagem vertical (eVTOL), listada na bolsa de Nova York em 2022, que representa a aposta do grupo na mobilidade aérea urbana.

Presença global e estrutura atual

A Embraer tem ações negociadas na B3 e na bolsa de Nova York desde 2000. Suas principais unidades industriais estão em São José dos Campos, Gavião Peixoto e Botucatu, no interior paulista, e no exterior em Évora (Portugal), Melbourne e Jacksonville (Flórida, Estados Unidos). A empresa emprega cerca de 20 mil pessoas e já entregou mais de 8 mil aeronaves ao longo de sua história.

Em 2018, a empresa negociou uma associação com a Boeing, que assumiria 80% do negócio de aviação comercial. O acordo foi encerrado pela fabricante norte-americana em abril de 2020, e a Embraer seguiu independente, diversificada entre aviação comercial, executiva, defesa e serviços.

O legado da Embraer vai além dos aviões. A empresa consolidou em São José dos Campos um dos poucos polos aeroespaciais do hemisfério sul, com fornecedores, laboratórios e instituições de ensino ao redor, e mostrou que uma empresa surgida de um instituto público de pesquisa pode competir em um mercado dominado por gigantes. Para a indústria nacional, a Embraer permanece como o exemplo mais claro de que investir em tecnologia própria, e não apenas em capacidade de produção, é o que transforma uma fábrica em uma potência.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Quando a Embraer foi fundada e por quem?

A Embraer foi criada em 19 de agosto de 1969 como empresa estatal, em São José dos Campos (SP), a partir de projetos do Centro Técnico Aeroespacial. O engenheiro Ozires Silva foi o principal articulador da fundação e seu primeiro presidente.

Qual foi o primeiro avião da Embraer?

O primeiro produto foi o EMB 110 Bandeirante, um bimotor turboélice para até 19 passageiros. Ele abriu caminho para o EMB 120 Brasília e, depois da privatização em 1994, para o jato regional ERJ 145.

Quais aviões a Embraer produz hoje?

A Embraer fabrica os jatos comerciais da família E-Jets e E2, os executivos Phenom 100, Phenom 300, Praetor 500 e Praetor 600, o cargueiro militar KC-390 Millennium e o turboélice de ataque leve A-29 Super Tucano, além do agrícola Ipanema.

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