sábado, 19 de setembro de 2026 Automação industrial e tecnologia para a indústria
Diário da Automação Automação industrial · tecnologia para a indústria
Empresas & Indústria

Braskem: a petroquímica que nasceu de uma fusão e virou referência em biopolímeros

Por Redação ·

Braskem: a petroquímica que nasceu de uma fusão e virou referência em biopolímeros

A Braskem é a maior empresa petroquímica das Américas e a maior produtora de resinas termoplásticas do continente. Diferentemente de outras gigantes industriais brasileiras, ela não tem um fundador nem uma oficina de origem: nasceu em 2002 da integração de seis empresas do polo petroquímico de Camaçari, na Bahia. Duas décadas depois, opera fábricas em quatro países e é conhecida no exterior sobretudo por um produto que poucos esperariam de uma petroquímica: o polietileno feito de cana-de-açúcar.

A origem: seis empresas e um polo petroquímico

Para entender a Braskem é preciso entender como a petroquímica brasileira foi montada. Nas décadas de 1970 e 1980, o governo federal, por meio da Petrobras e de sua subsidiária Petroquisa, estruturou os polos de Camaçari (BA), Triunfo (RS) e Capuava (SP) num modelo tripartite: capital estatal, capital privado nacional e capital estrangeiro dividiam o controle das centrais de matérias-primas e das empresas que transformavam eteno e propeno em resinas.

Esse modelo gerou dezenas de empresas pequenas, sem escala para competir globalmente. A privatização dos anos 1990 abriu caminho para a consolidação, e o grupo Odebrecht, em parceria com o grupo Mariani, reuniu suas participações no setor. Em 16 de agosto de 2002, seis companhias foram integradas numa única empresa: Copene, a central petroquímica de Camaçari, além de OPP Petroquímica, Trikem, Nitrocarbono, Proppet e Polialden. Nascia a Braskem, com a Petrobras como sócia relevante.

Marcos de expansão: das aquisições no Brasil às fábricas no exterior

Nos anos seguintes, a Braskem continuou a consolidar o setor. Em 2006, incorporou a Politeno; em 2007, assumiu a Ipiranga Petroquímica, em conjunto com a Petrobras; em 2010, adquiriu a Quattor, que reunia os ativos petroquímicos da Petrobras e do grupo Unipar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Com isso, a empresa passou a controlar praticamente toda a produção de polietileno, polipropileno e PVC do Brasil.

A internacionalização começou no mesmo ano. Em 2010, a Braskem comprou o negócio de polipropileno da Sunoco Chemicals, nos Estados Unidos, e em 2011 adquiriu as fábricas de polipropileno da Dow nos Estados Unidos e na Alemanha, tornando-se a maior produtora dessa resina na América do Norte. No México, em parceria com o grupo Idesa, construiu o complexo Etileno XXI, em Coatzacoalcos, baseado em etano, que iniciou operações em 2016. Em 2020, inaugurou uma nova planta de polipropileno em La Porte, no Texas, uma das maiores do gênero no mundo.

O que a Braskem produz hoje

A empresa atua em duas camadas da cadeia. Na primeira, opera centrais que transformam nafta, etano e propano em petroquímicos básicos: eteno, propeno, butadieno, benzeno e outros. Na segunda, converte esses insumos em resinas termoplásticas:

A Braskem tem unidades industriais na Bahia, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Alagoas, além das plantas nos Estados Unidos, na Alemanha e no México. Emprega cerca de 8 mil pessoas e tem ações negociadas na B3 e na bolsa de Nova York. Seus principais acionistas são a Novonor, antigo grupo Odebrecht, e a Petrobras.

Biopolímeros e a agenda de circularidade

O produto que deu projeção internacional à Braskem foi o polietileno verde, da marca I'm green. Em vez de partir de nafta ou gás, a rota usa etanol de cana-de-açúcar, desidratado para produzir eteno e, em seguida, polimerizado. O resultado é quimicamente idêntico ao polietileno convencional, podendo ser processado nos mesmos equipamentos, com a diferença de que o carbono contido na resina foi capturado da atmosfera pela cana durante o crescimento.

A fábrica de eteno verde foi inaugurada em 2010 no polo de Triunfo, no Rio Grande do Sul, com capacidade inicial de cerca de 200 mil toneladas por ano, ampliada posteriormente. Com ela, a Braskem se tornou a maior produtora mundial de biopolímeros, e a marca passou a aparecer em embalagens de bens de consumo em vários países. A empresa também desenvolveu um EVA de origem renovável, usado em calçados.

Na última década, a companhia ampliou a agenda para a economia circular, com resinas feitas a partir de reciclagem mecânica de plástico pós-consumo, comercializadas sob a marca Wenew, e parcerias em reciclagem química, num momento em que metas de conteúdo reciclado avançam na Europa e na América do Norte.

Automação e operação de plantas contínuas

Uma central petroquímica é um dos ambientes mais automatizados da indústria. Processos contínuos, a altas temperaturas e pressões e com produtos inflamáveis, dependem de sistemas de controle distribuído (DCS), sistemas instrumentados de segurança, controle avançado de processo e milhares de malhas que mantêm a planta dentro de faixas estreitas de operação. Uma parada não programada numa central de eteno afeta toda a cadeia de resinas a jusante.

Por isso, empresas como a Braskem estão entre as maiores usuárias de manutenção baseada em condição, monitoramento de máquinas rotativas e integração de dados de processo com sistemas corporativos. A migração para arquiteturas digitais, com gêmeos digitais, analytics para otimizar rendimento e consumo energético e sensoriamento sem fio em áreas classificadas, é parte da estratégia de competitividade do setor. Quem quer entender como estruturar esse tipo de projeto pode começar pelo nosso guia sobre indústria 4.0 na prática: por onde começar.

Desafios recentes

A trajetória da Braskem também inclui passivos relevantes. Em 2016, a companhia firmou acordo de leniência com autoridades do Brasil, dos Estados Unidos e da Suíça, no âmbito das investigações da Operação Lava Jato, com pagamentos que somaram cerca de 1 bilhão de dólares. Em Maceió, a extração de sal-gema realizada pela empresa durante décadas foi associada ao afundamento do solo em bairros inteiros, o que levou à interrupção da mineração em 2019 e à realocação de dezenas de milhares de moradores, com provisões de vários bilhões de reais para indenizações e recuperação das áreas. Nos últimos anos, a venda do controle acionário da companhia esteve em negociação com diferentes grupos.

Em pouco mais de vinte anos, a Braskem transformou um setor fragmentado numa empresa de escala global e provou que uma petroquímica pode ser referência em resinas de origem renovável. Para a indústria brasileira de transformação, ela é a principal fornecedora de matéria-prima plástica; para a automação, é um exemplo de operação contínua em que controle de processo, segurança funcional e manutenção preditiva não são diferenciais, mas condição básica de funcionamento.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Como a Braskem foi criada?

A Braskem foi criada em 16 de agosto de 2002, pela integração de seis empresas petroquímicas, entre elas a Copene, a OPP Petroquímica e a Trikem, ligadas aos grupos Odebrecht e Mariani e à Petrobras. A base inicial foi o polo petroquímico de Camaçari, na Bahia.

O que é o polietileno verde da Braskem?

É um polietileno produzido a partir de etanol de cana-de-açúcar, em vez de nafta ou gás natural. A Braskem inaugurou a fábrica em Triunfo (RS) em 2010, com capacidade inicial de cerca de 200 mil toneladas por ano, e comercializa o produto sob a marca I'm green.

Onde a Braskem tem fábricas?

A Braskem tem unidades industriais no Brasil (Bahia, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas), nos Estados Unidos, na Alemanha e no México, onde opera a Braskem Idesa em parceria com o grupo Idesa.

Veja também