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40 anos do barramento CAN: do automóvel às máquinas industriais

Por Redação ·

40 anos do barramento CAN: do automóvel às máquinas industriais

Em 1986, engenheiros da Bosch subiram ao palco do congresso da SAE, a sociedade de engenheiros automotivos dos Estados Unidos, em Detroit, para apresentar um protocolo de comunicação serial pensado para automóveis. O nome era Controller Area Network, logo abreviado para CAN. Quarenta anos depois, o barramento está em praticamente todo carro, caminhão, trator e em uma quantidade enorme de máquinas industriais, elevadores, equipamentos médicos e robôs.

A história do barramento CAN é a de uma solução para um problema bem concreto, o excesso de fios, que se revelou robusta o bastante para sair da indústria automotiva e se instalar no chão de fábrica.

O problema: cabos demais dentro do carro

No início dos anos 1980, os automóveis ganhavam rapidamente módulos eletrônicos: injeção, freios antitravamento, controle de transmissão, painel de instrumentos. Cada módulo precisava trocar informações com os outros, e a solução da época era ligar ponto a ponto, com um fio para cada sinal. O chicote elétrico crescia em peso, custo, volume e pontos de falha.

A Bosch começou a desenvolver o CAN em 1983 com uma proposta diferente: um único par de fios compartilhado por todos os módulos, pelo qual cada um enviaria mensagens identificadas. Em vez de dizer quem recebe, cada mensagem diria o que contém, e cada módulo leria apenas as que lhe interessam.

Como o CAN funciona

Três características explicam por que o protocolo resistiu tão bem ao tempo:

O barramento é linear, com resistores de terminação nas duas extremidades. Há um compromisso entre velocidade e comprimento: quanto maior a taxa de transmissão, menor o comprimento máximo da rede, porque o bit precisa chegar a todos os nós dentro do mesmo intervalo para a arbitragem funcionar.

Do laboratório aos carros de série

Depois da apresentação de 1986, o protocolo ganhou implementações em silício. A Intel lançou o primeiro controlador CAN em 1987, e a Philips veio logo em seguida. Em 1991, a Bosch publicou a especificação CAN 2.0, com duas partes: a parte A, para identificadores de 11 bits, e a parte B, para identificadores estendidos de 29 bits. No mesmo ano chegou às ruas o Mercedes-Benz Classe S da série W140, reconhecido como o primeiro veículo de produção com um sistema de fiação multiplexada baseado em CAN.

Em 1993, a ISO publicou a norma ISO 11898, que padronizou o protocolo internacionalmente. A partir daí, o CAN se espalhou pela indústria automotiva e se tornou a espinha dorsal da eletrônica embarcada.

A chegada à automação: CANopen, DeviceNet e companhia

O CAN define como os bits e as mensagens trafegam, mas não diz o que cada mensagem significa. Para usar o barramento em máquinas, com dispositivos de fabricantes diferentes, era preciso um protocolo de camada superior que padronizasse perfis de dispositivos, parametrização e troca de dados.

Em 1992, fabricantes e usuários fundaram na Alemanha a associação CAN in Automation (CiA), que passou a manter as especificações de aplicação industrial. O resultado mais conhecido é o CANopen, cuja especificação básica de comunicação e perfil de dispositivo está no documento CiA 301. O CANopen organiza os dados de cada dispositivo em um dicionário de objetos, com mensagens para dados de processo (PDO), acesso a parâmetros (SDO), gerenciamento de rede e emergência. Perfis específicos padronizam acionamentos, módulos de entrada e saída, encoders e outros dispositivos.

Outras camadas de aplicação seguiram caminhos próprios:

Há ainda um efeito menos visível: os perfis de dispositivo do CANopen foram adotados por redes baseadas em Ethernet. O EtherCAT, por exemplo, pode transportar o perfil CANopen para acionamentos, o que facilitou a migração de fabricantes e integradores.

Onde o CAN ainda está nas máquinas

Mesmo com a expansão das redes Ethernet industriais, o barramento CAN mantém espaço em aplicações em que custo, robustez e simplicidade pesam mais que a banda:

Diagnóstico em campo: o básico que resolve a maioria dos casos

Quem mantém máquinas com rede CAN acaba desenvolvendo um roteiro de verificação. Boa parte das falhas está na camada física, e alguns testes simples, feitos com a rede desenergizada e com um multímetro comum, eliminam as causas mais frequentes:

Com a rede energizada, um analisador de barramento ou a própria ferramenta de diagnóstico do controlador mostram os contadores de erro de cada nó, o que ajuda a localizar o trecho com problema.

A evolução: CAN FD e CAN XL

O limite de 8 bytes de dados por mensagem e a taxa máxima de 1 Mbit/s do CAN clássico ficaram apertados para os carros atuais. Em 2012, a Bosch apresentou o CAN FD (flexible data rate), que aumenta a carga útil para até 64 bytes e permite acelerar a transmissão na fase de dados, mantendo a arbitragem compatível. O passo seguinte é o CAN XL, que amplia ainda mais o tamanho das mensagens e a taxa de transmissão e ocupa o espaço entre o CAN FD e a Ethernet automotiva.

Para o técnico de automação, essa evolução significa que o conhecimento do CAN clássico continua útil. Os conceitos de identificador, arbitragem, terminação e diagnóstico de erros valem para as novas versões, e os problemas mais comuns em campo, como terminação ausente ou duplicada, derivações longas demais e taxa de transmissão diferente entre nós, são os mesmos de sempre.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre CAN e CANopen?

O CAN define a camada física e de enlace: como os bits trafegam, como a arbitragem funciona e como os erros são detectados. O CANopen é um protocolo de camada superior, mantido pela CiA, que define o significado das mensagens, os perfis de dispositivos e a parametrização.

Por que o barramento CAN precisa de resistores de terminação?

Os resistores nas duas extremidades casam a impedância da linha e evitam reflexões de sinal que corromperiam as mensagens. A ausência de terminação ou a instalação de resistores a mais estão entre as causas mais frequentes de falhas em redes CAN.

O CAN ainda é usado em projetos novos?

Sim, especialmente em máquinas móveis, veículos, sistemas embarcados e acionamentos compactos. Em fábricas, as redes Ethernet industriais dominam a integração de alto nível, mas o CAN segue presente onde robustez e custo pesam mais que a banda.

O que é o CAN FD?

É a evolução do CAN apresentada pela Bosch em 2012. Permite mensagens com até 64 bytes de dados e uma taxa de transmissão mais alta na fase de dados, mantendo o mecanismo de arbitragem do CAN clássico.

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